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    Indigenista desaparecido no AM sofria ameaças constantes de pescadores

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    Desaparecido desde o último domingo (5) durante viagem ao Vale do Javari, no Amazonas, ao lado do jornalista Dom Phillips, o indigenista Bruno Pereira, 41, acumula anos de trabalho junto aos povos indígenas e foi alvo de ameaças em razão de sua atuação.

    Servidor de carreira da Funai (Fundação Nacional do Índio) desde 2010, Pereira pediu licença depois de ter sido exonerado da Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém-Contatados, na qual esteve por 14 meses. Ele foi dispensado do cargo em outubro de 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), e desde então passou a trabalhar na ONG Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari).

    Conforme noticiou a Folha de S.Paulo à época, o ato de exoneração foi assinado pelo secretário-executivo do ministério então comandado pelo ex-juiz federal Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública).

    Sua saída não foi explicada internamente sob nenhum aspecto técnico e acompanhou outras exonerações que ocorreram depois que o delegado da Polícia Federal Marcelo Xavier Silva, apoiado pela bancada ruralista, assumiu a presidência da fundação.

    Antes de liderar a Coordenação de Índios Isolados, Pereira esteve por anos à frente da Coordenação Regional do Vale do Javari, terra indígena frequentemente invadida por garimpeiros, madeireiros, caçadores e pescadores, onde ele foi visto pela última vez.

    “Bruno é uma figura pública na região, tem uma capacidade muito forte de mobilizar os órgãos públicos para fazer as operações. Está há muito tempo atuando”, diz Fabio Ribeiro, coordenador executivo do Opi (Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato).

    Em 2019, Pereira chefiou a maior expedição para contato com os isolados em 20 anos. Seus colegas dizem que ele estava insatisfeito com as dificuldades que tinha para atuar na Funai, que sofria pressão de superiores e que, por isso, decidiu trabalhar diretamente com a Univaja.

    O OPI e a Univaja afirmam que o indigenista vinha sofrendo ameaças. “Enfatizamos que na semana do desaparecimento, conforme relatos dos colaboradores da Univaja, a equipe recebeu ameaças em campo. A ameaça não foi a primeira, outras já vinham sendo feitas a demais membros da equipe técnica da Univaja”, disseram as entidades em comunicado.
    Forças Armadas e polícia do Amazonas seguem nas buscas pelos desaparecidos.

    Há cerca de um mês, a instituição recebeu uma carta enviada por pescadores com ameaças de morte nominais contra Pereira. O documento, revelado pelo jornal O Globo e confirmado pela Folha de S.Paulo, fala em acerto de contas. “Sei que quem é contra nós é o Beto Índio e Bruno da Funai, quem manda os índios irem para área prender nossos motores e tomar nosso peixe”, diz o texto, citando também Beto Marubu, um dos coordenadores do grupo.

    A carta segue com as ameaças e diz que, “se continuar desse jeito vai ser pior”; afirma ainda que esse é o único aviso que os pescadores darão.

    Pereira é pai de três filhos – duas crianças de 2 e 3 anos e uma adolescente de 16. Em entrevista à reportagem na segunda-feira (6), sua mulher, a antropóloga Beatriz de Almeida Matos, pediu rapidez nas buscas pelo companheiro.

    “Eu conheço bem a região, sei que podem acontecer vários acidentes, mas estou apreensiva por causa das ameaças que ele sofria. Quero que todo o esforço possível seja feito para encontrar ele e o Dom [Phillips]”, disse.

    As ameaças que o indigenista sofreu recentemente não são novidades, segundo pessoas que o conhecem. Ele sempre atuou em ações de fiscalização e repressão a atividades ilegais nas terras indígenas da região.

    A Base de Proteção Ituí-Itacoaí, próxima ao local de desaparecimento, foi atacada recentemente em oito episódios de violência armada contra indígenas e funcionários da Funai, segundo carta divulgada nesta terça-feira (7) por entidades de defesa dos povos indígenas.

    Em 2019, o colaborador da Funai Maxciel Pereira dos Santos, da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, foi assassinado a tiros em sua residência na cidade de Tabatinga (AM).

    “Diante desse panorama, torna-se necessária de maneira urgente uma ação eficaz de apuração dos fatos e de busca imediata: cada hora que passa coloca em risco definitivo a possibilidade de sobrevivência dos dois desaparecidos, ao mesmo tempo em que faz crescer a consolidação de um território sem lei, nas mãos de criminosos confiantes nos seus plenos poderes perante a incapacidade de atuação dos representantes legítimos do Estado de direito”, diz a nota das instituições.

    Por Ana Luiza Albuquerque e João Gabriel, da Folhapress

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