sábado, março 2, 2024
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    Aquecimento global pode ser catastrófico para o Brasil, alertam cientistas

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    O Brasil deve esforçar-se para cumprir as metas acordadas no âmbito do Acordo de Paris, e manter seu protagonismo nos esforços multilaterais visando acabar com os efeitos danosos do aquecimento global. Este foi o consenso na reunião conjunta das Comissões de Relações Exteriores (CRE) e de Meio Ambiente (CMA) na quinta-feira (30), com renomados cientistas brasileiros que pesquisam as mudanças climáticas.

    Especialistas em mudanças climáticas participaram de reunião conjunta da CRE e CMA e demonstraram preocupação com as consequências do aumento das temperaturas. (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

    Impacto total

    Para o biofísico Carlos Nobre, que atua junto à Universidade de São Paulo (USP) e também é membro da Academia de Ciências dos EUA (em inglês: NAS), praticamente todas as regiões brasileiras serão inviabilizadas sócio-economicamente, caso a temperatura média mundial aumente 5ºC até o final do século, que é o que pode ocorrer se nada for feito para reduzir as emissões de CO2.

    Ele alertou que os efeitos do aquecimento global já são evidentes no Brasil, uma vez que durante a década de 1960, a média de dias por ano com temperatura superior a 34ºC nunca passava de 30 dias, mas desde o início do século 21, este índice nunca mais foi inferior a 60 dias por ano. A temperatura média de 34ºC é relevante para o Brasil porque um índice superior a este inviabiliza a prática de diversas culturas agrícolas.

    O biofísico chamou a atenção ainda para a possibilidade do Brasil passar a sofrer mais com eventos extremos relacionados a períodos de seca ou de chuvas, respectivamente nas regiões Nordeste e Sudeste. Condições extremas destes fenômenos já vêm se manifestando com uma freqüência muito maior nos últimos anos, e estes extremos podem tornar-se o “novo normal” nestas regiões.

    “A situação do Nordeste é muito preocupante. A seca entre 2012 e 2018 foi a mais longa da história, e estas medições são feitas desde o período do Império. A região já vive um período de aridização, por exemplo, no norte da Bahia”, avisou Nobre.

    A Amazônia também já passa por situações anômalas e sem precedentes desde 2009, alternando seguidamente períodos de secas e inundações.

    Vida inviável

    Nobre defendeu o cerne do Acordo de Paris, para que a temperatura média global não aumente mais do que 2ºC até 2100. Ele lembrou que o trabalho da ONU leva em conta um índice mundialmente consensual na medicina, que calcula o limite fisiológico do ser humano a uma temperatura de 34ºC, levando em conta a umidade relativa do ar em 100%. Cidades como Manaus, Cuiabá e Rio Branco já atingem a temperatura de 32°C hoje neste cálculo.

    “São regiões de nosso país que estão a meros 3°C de atingirem o limite fisiológico humano. No pior dos cenários, em caso de descontrole climático, em toda a Amazônia, no Nordeste e mesmo em outras regiões do país, durante mais de 200 dias por ano as pessoas terão que estar em ambientes internos com ar-condicionado durante algumas horas, todos os dias, impossibilitadas de saírem para ambientes externos. Se o Acordo de Paris fracassar, este é o quadro para o qual o país deve se preparar. Projeções indicam que pelo menos 500 milhões de pessoas morrerão em todo o mundo caso o clima saia do controle”, alertou.

    Nobre ainda apresentou estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Fórum Econômico Mundial alertando para riscos graves ao agronegócio brasileiro, relacionados às alterações climáticas. Chamou atenção para o fato de que não há engenharia genética capaz de fazer uma planta realizar fotossíntese acima de 43°C.

    Além disso, o descontrole das emissões pode levar todo o Nordeste à condição de seca extrema, com avanço significativo da Caatinga sem condições de manter a vegetação, tornando a região tecnicamente um semi-deserto.

    Por fim, o Brasil corre risco concreto de, na prática, perder a região amazônica, a partir da combinação dos efeitos das mudanças climáticas com o desmatamento e o aumento dos incêndios florestais, finalizou o cientista.

    Outras participações

    O físico Paulo Artaxo, que atua junto ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), corroborou as pesquisas apresentadas por Nobre. Ele ainda divulgou outros levantamentos, de organismos como a FAO (Organização da ONU para a Agricultura e a Alimentação) e também do IPCC e do Inpe, com projeções semelhantes em relação à agropecuária brasileira em caso de descontrole climático. Ele entende que o país não tem como escapar, por exemplo, de já tomar diretrizes mais incisivas visando diminuir a emissão do gás metano.

    A geobotânica Mercedes Bustamante alertou para o fato do Brasil ainda hoje “apenas arranhar” seu gigantesco potencial na bio-economia. Por isso, ela considera “francamente equivocado” um enfoque, ainda forte em setores sociais brasileiros, de que a preservação ambiental é um empecilho ao desenvolvimento. O aquecimento global é que pode pôr em risco a biodiversidade do nosso território, no entender da cientista.

    Corte de 95% no orçamento sobre mudanças climáticas

    O Ministério do Meio Ambiente bloqueou, no início deste mês, cerca de 95% do orçamento para implementar políticas sobre mudanças climáticas no Brasil. A confirmação dos valores dos cortes ocorre um dia após a divulgação de relatório da ONU, segundo o qual um milhão de espécies podem ser extintas em decorrência de diversos fatores.

    O valor inicial destinado para o tema no Ministério era de R$ 11,8 milhões. As informações foram publicadas em reportagem do jornal O Globo na terça-feira (7). O presidente Jair Bolsonaro já havia sinalizado, no passado, uma possível retirada do Brasil do Acordo de Paris, que estabelece metas para combater o aquecimento global.

    Bolsonaro desistiu da saída, mas não descartou a ação no futuro. Porém, a política climática é a mais atingida na pasta ambiental: sofreu um corte total de R$ 187,4 milhões imposto pela equipe econômica. O montante equivale a 22,7% do valor total do orçamento discricionário (não obrigatório) do ministério, de cerca de R$ 825 milhões.

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