sábado, março 2, 2024
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    O obstáculo do alcoolismo na educação de jovens indígenas no Amazonas

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    Mariah Brandt, Portal Projeta – No extremo noroeste do Amazonas existe uma região conhecida por muitos de nós como a “cabeça do cachorro”. Nela está localizado o município de São Gabriel da Cachoeira, distante 858 quilômetros de Manaus.

    A cidade é maior que os estados do Rio de Janeiro, Alagoas, Sergipe e Distrito Federal juntos. Grande, não é? Mas a dimensão territorial nem é o que de mais grandioso existe por lá.

    São Gabriel é o local com maior presença indígena do Brasil, com 16 línguas indígenas faladas em um mesmo município. Em resumo: a cidade representa um símbolo de resistência num país que derrama o sangue de seus primeiros habitantes por meio de decisões autoritárias.

    Para perpetuar os idiomas, a cultura e superar dogmas e preceitos religiosos sofridos por seus ancestrais, o caminho tem sido a educação.

    Foto: (Reprodução/Revista Trip)

    Estudar para educar

    Há dez anos existe um curso de licenciatura para Formação de Professores Indígenas, oferecido pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O curso já formou 150 professores de diversas etnias da região de São Gabriel da Cachoeira e, também, municípios próximos.

    As principais comunidades dessa região são os distritos de Iauareté, Taracuá e Pari-Cachoeira, que formam o Triângulo Tukano.

    Foi de lá que saíram reflexões preciosas do Padre Justino Sarmento Resende, indígena da etnia Tukuya, nascido e crescido em Pari-Cachoeira, graduado em teologia e mestre em educação pela Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande (MS).

    Justino é um dos autores do livro “Processo de Alcoolização Indígena no Brasil: Perspectivas Plurais”. Sua pesquisa tem informações potentes sobre o consumo do álcool pelas comunidades indígenas, se tornando também um panorama necessário para pessoas não-indígenas refletirem suas relações com as bebidas alcoólicas e fermentadas.

    Fora do tempo

    O estudo narra nostalgicamente memórias de um tempo que corria de forma diferente. A maneira peculiar como vivem os habitantes de territórios indígenas, com profunda relação e conexão com a natureza num espaço onde o tempo e o relógio não são os protagonistas.

    Foto: Museu do Índio

    Depois do arroz e do milho, a mandioca é considerada a terceira maior fonte de carboidrato disponível na alimentação básica indígena. É dela que vem o beiju, a farinha que faz o chibé e a goma para a tapioca e para o tacacá, além de também ser servida cozida e frita.

    Dentro das aldeias indígenas, em São Gabriel e em muitas outras espalhadas pela Amazônia, a mandioca também é usada para produção de bebidas tradicionalmente tidas como sagradas.

    Cerimônias sagradas

    O processo de produção do Caxiri, por exemplo, é cheio de rituais. Para fazê-lo é necessário possuir roça. Através dela, se cultiva mandioca e outras frutas que poderão servir de mistura. Sua base é alcoólica, mas se difere muito das bebidas consumidas em bares por aí.A matéria-prima é tão rica que dela se pode extrair caxiri de cana, caxiri vivo, caxiri doce, caxiri de milho, caxiri de cará, caxiri de abacaxi e por aí vai.

    Cuia com o fermentando alcoólico de mandioca, na comunidade Cunuri, no rio Uaupés Foto: Guilherme Gomes

    O Caxiri era consumido em longas cerimônias festivas, que duravam até três dias, entre acolhida, festa e seu final. O propósito era voltado a celebrar as próprias tradições. Muitos dos relatos de Justino em seu estudo são memórias de seu avô e das próprias experiências que viveu em sua infância e início de sua juventude.

    “As bebidas estavam bem presentes nestes dias. Bebiam à vontade e até vomitavam. Muitas pessoas ficavam embriagadas. Dormiam, acordavam e tornavam a beber”, disse.

    Segundo ele, os mestres de canto e dança assim como os benzedores e os sábios eram os que mais tinham resistência aos rituais com Caxiri e tinham que acompanhar cada momento da cerimônia.

    Revelações espirituais

    Já a bebida Caapi, alucinógenaera mais amarga e oferecida somente aos iniciados. Ela provoca visões de inspiração e iluminação sobre cantos, danças e benzimentos. Tomá-la exigia um período de preparação, tendo o indígena que se abster de alguns alimentos, antes e depois dos rituais. Sexo, até aos casados, também não era permitido.

    A preparação servia para manutenção e continuidade dos benefícios espirituais adquiridos com a cerimônia. É como se você preparasse seu corpo como um agricultor prepara a terra que vai receber frutos. E os frutos, para eles, eram as revelações espirituais.

    “O benzedor do caapi é que determina, pela força dos benzimentos, os efeitos que aquele caapi e naquele tipo de canto-dança produza nos consumidores. É ele que também, conforme o andamento, pode cortar o efeito do caapi”

    Primeiras práticas escolares

    As práticas escolares foram surgindo para os indígenas lado a lado das evangelizações. Logo após a colonização do país, o catolicismo foi gradativamente iniciando seu processo de expansão, bem como a alfabetização na língua portuguesa – que já foi motivo de orgulho para alguns deles em certo período.

    Hoje, definitivamente, isso caiu por terra. Nos últimos anos – não tanto quanto deveriam ou poderiam -, indígenas têm tido maior autonomia da sua própria educação, atuando como protagonistas na recuperação de seus saberes e conhecimentos de suas raízes.

    Por essa lógica, passado, presente e futuro voltava a se misturar como nas memórias nostálgicas de Justino e seu avô, em que o saber ancestral era presença de luz e conexão com o todo. Mas a “lógica”, entretanto, encontra obstáculos devastadores para seguir como antes.

    O Caxiri na educação

    A essa altura, já era sabido entre os indígenas do Triângulo que fortalecer sua própria cultura passava pelo conhecimento da sua ancestralidade. O problema se deu nas últimas décadas, quando o conhecimento dos efeitos físicos do Caxiri se sobrepuseram ao seu real e antigo propósito.

    O Caxiri dentro das práticas escolares tem causado preocupações para gestores, pais, alunos, professores, administradores, secretários e assessores escolares, conforme estudo feito por Justino.

    Segundo ele, 10% da população do Triângulo Tukano consome a bebida em grau de dependência. Assim como qualquer outra sociedade contemporânea, há no Triângulo indivíduos com pré-disposição para desenvolver o alcoolismo.

    Mas lá, onde a maioria da população não é branca, ainda é como se não fizessem parte do restante do país. Não chegam centros psiquiátricos, grupos de auto-ajuda, centros de tratamento ou qualquer política pública para, de fato, resolver a questão – e não, não é problema deles.

    “É fácil encontrar pessoas em estágios avançados de alcoolismo, dependentes do álcool para viver, trabalhar. E, muitas mortes já aconteceram e a causa da morte foi o consumo da bebida alcoólica: cirrose hepática, assassinatos, enforcamentos, envenenamentos, afogamentos”, conta Justino.

    Já foram muitas as realidades vividas pelos povos indígenas ao longos dos anos. O contato com o mundo não-indígena não é mais algo a ser descartado. Ainda assim, eles querem continuar indígenas, aprender mais sobre si e sobre os outros, do mesmo modo que você e eu queremos aprender mais deles e de nós mesmos neste exato momento.

    Um índio usar um telefone móvel ou se vestir com alguma marca feita por brancos não significa que são “menos índios” por isso. Se o contrário fosse aplicado aos brancos, sequer teríamos o que comer, já que o manejo de caça, pesca e cultivo nos foram herdados.

    Ainda que a atual conjuntura política negue aos indígenas o direito à terra, ela não pode permanecer a negar seu direito pleno à cidadania – e então, concordamos, não pode mesmo ser medido por metro quadrado.

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